“Nutricionismo e Nutricionistas: a ausência do SER humano”

Hoje decidi partilhar um texto que uma colega de profissão, Dra. Ana Perdigão (Nutricionista) publicou no seu blogue. A decisão deve-se ao facto de concordar com a opinião da autora do artigo e por sentir que em Portugal a realidade é, infelizmente, muito semelhante. Pelo menos no que toca ao tipo de relatos e desabafos que os clientes me transmitem em consulta. Para refletir:

“Antes de entrar na questão sobre o título do artigo, primeiramente gostaria de fazer um breve relato pessoal. 

Meses antes da minha formatura, eu estava cursando o estágio de Nutrição Clínica no Hospital Universitário, quando uma das nutricionistas nos deu vários prontuários para que pudéssemos fazer visita aos leitos. Acompanhei a nutricionista em cada visita, fazendo minhas anotações. Em um determinado momento, perguntei a ela qual era o nome da próxima paciente que visitaríamos, já que eu não estava com o prontuário em mãos. Ela disse “Não sei. Mas, isso não importa. Só precisamos passar a visita”. Eu pensei em perguntar “Como não importa?”, mas me contive. Não começaria uma discussão no corredor do hospital. Pacientes não são apenas um número nos prontuários. São pessoas.

Voltei para casa e me perguntei se todos os nutricionistas são assim. Existem vários casos de médicos que são distantes e frios com os pacientes e me perguntei se isso também acontecia conosco. Então, tomei a decisão de me consultar com 4 nutricionistas. De estar na pele do paciente. Pois bem. Após as 4 consultas (em dias diferentes) cheguei a conclusão de que eu havia odiado os atendimentos. Não me identifiquei como acadêmica de nutrição. Apenas era eu, paciente. Relatei meus problemas de saúde, disse que não sabia comer e tinha uma relação ruim com a comida (o que não é verdade, eu apenas queria ver como reagiriam). O fato é que não me explicaram em nenhum momento o que meus sintomas tinham a ver com a nutrição, e mal perguntaram se eu fazia uso de medicamentos. Pior: não solicitaram exames bioquímicos. Mal sabiam qual era a fisiopatologia de determinada doença. Para finalizar o desgosto, 3 me mandaram dieta via email (o absurdo dos absurdos!) e 1 imprimiu uma dieta qualquer, assinou e me entregou sem dizer muita coisa.

Voltei para casa triste. Fiquei pensando em quantas pessoas, que não têm o conhecimento que tenho (por ser da área) se submetem a esses profissionais, porque precisam e não têm em quem confiar. Em quantas pessoas não têm acesso a uma conduta mais digna. Refleti sobre o quanto se aprende na faculdade, o quanto se deveria aprender e o quanto se esquece ou se ignora durante a vida profissional. Decidi que não queria ser assim. Ou me tornar esse tipo de profissional de saúde. Não achava justo. Não achava correto. Não achava humano. E, continuo com o mesmo pensamento.

Quantos pacientes chegam até mim, aterrorizados, traumatizados e com uma visão muito distorcida da nutrição. Às vezes, alguns pacientes nem sabem o quanto conhecem o lado torto da área. A dieta FIT do frango, ovo e batata doce prescrita por nutricionista ~TOP~ (só que não!) pode parecer excelente aos olhos de um leigo, e dependendo do marketing feito em cima da dieta, os pacientes acreditam veementemente que aquele profissional é quase um Deus e aquilo precisa ser seguido impreterivelmente e sem alterações. 

Atualmente, eu e mais outros colegas espalhados pelo país (humanos e fofos!) somos vistos com olhares tortos por muitos nutricionistas, e até com um certo estranhamento por parte de outros profissionais de saúde e leigos. “Que nutricionista diferente!”, alguns dizem. O diferente que deveria ser comum. A alimentação e o ato de comer além de terem características fisiológicas e essenciais à vida, são também carregados de simbolismo, afetividade e cultura. São características intrínsecas e inseparáveis dos alimentos. Porém, o que mais se vê hoje são pessoas que não sabem mais o que comer e não têm suas dúvidas sanadas pelo profissional que as assiste. Inclusive, se vê o efeito contrário. Quanto mais se vai a um nutricionista, mais se tem a certeza de que não se consegue comer mais.

A nutrição, além de ter virado um negócio, deturpou a imagem que temos de nós mesmos, como pessoas que comem e se nutrem. Não ingerimos apenas nutrientes. Ingerimos cuidado, carinho, afeto, boas lembranças, alegria. E, por vezes, engolimos sentimentos ruins como tristeza, mágoas, culpa, dor e vazio. E algumas vezes descarregamos nossas insatisfações ou sucessos na comida, SIM. É algo absolutamente normal. 

Tudo isso foi exposto para dizer que se perdeu a confiança na nutrição. O que muitos nutricionistas fazem, hoje, qualquer um pode fazer. Só procurar no Dr. Google. Ou escutar e se motivar através de dietas milagrosas feitas por sabe Deus quem. Isso sem contar que muitos alimentos perderam sua própria identidade. Brownie/brigadeiro FIT (que não é brigadeiro nem brownie), quibe FIT (meus parentes árabes se reviram no túmulo neste momento, pois isso nunca será um quibe!), dentre outros. Uma coisa é você utilizar a nutrição para ter alternativas em se alimentar, outra coisa é demonizar alimentos e modificá-los para dar um aspecto mais leve ou funcional. 

Todas essas vertentes que a nutrição seguiu (fizeram-na seguir) resultou na perda do seu valor. Virou moda. Virou estilo de vida. Como forma de vender, gerar lucro. Para empresas e para os próprios profissionais da área. Muitos nutricionistas deixaram de ter (ou nunca tiveram? A saber!) uma posição empática sobre seu público alvo ou pacientes.

Empatia nada mais é do que você se colocar no lugar do outro. Entender a situação pela visão de outra pessoa e assim compreender porque as pessoas comem de tal forma ou agem de maneira específica com a própria alimentação. E a partir de uma perspectiva diferente da sua, perceber que aquele mundo FIT ou aquela conduta mercadológica e pseudosaudável (detox, zero glúten e lac free) pode ser ilusória ou até mesmo prejudicial para tal pessoa. Não somos apenas um amontoado de ossos, órgãos e nutrientes. Somos seres pensantes, que sentem, que acreditam, que confiam. A relação profissional-paciente deve ser baseada na harmonia, no amor ao próximo, na compaixão e no empático. 

Nesse processo de vilanizar a nutrição, ou endeusá-la (vide suplementos para atividade física, por exemplo), os profissionais se aproximam da doença, do que pode e do que não pode e se afastaram do doente. O paciente sofre tanto pelo seu transtorno/doença quanto pela falta de confiança. Ou pelo excesso dela, acreditando cegamente no que não deveria.

Muitos profissionais atualmente estão alienados, distantes do conhecimento da realidade vivida pelas pessoas. E, isso, não é nem de longe terapêutico. Tampouco educativo.

Artigo originalmente publicado no blogue da autora: 

  • http://draanaperdigao.blogspot.com.br/2015/01/nutricionismo-e-nutricionistas-ausencia.html

2 thoughts on ““Nutricionismo e Nutricionistas: a ausência do SER humano”

  1. Ana Perdigão says:

    Sofia, me mostraram teu site e disseram-me que você havia mencionado um texto meu. 🙂

    Agradeço a recomendação! Beijinhos do Brasil. <3

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