Sabe o que é o “bliss point”?

chipsApetece-me tanto umas batatas fritas…mas é melhor não. Se abrir o pacote como-as todas e depois vou ficar aborrecida…ok, abro o pacote mas vou comer só 10, nem mais uma! …eu já sabia, não tenho força de vontade nenhuma, eu já sabia que se abrisse o pacote, as batatas iam todas.

Acredito que, se pudessem, todas as pessoas fariam uma alimentação mais saudável. Apesar disso, parece que a força de vontade lhes falta quando olham para um pacote de batatas fritas ou um gelado. Muitas vezes, acompanhando o prazer de saborear o alimento desejado vem um sentimento de fraqueza e derrota. Mas, se queremos tanto fazer uma alimentação mais saudável, se sabemos, em parte, o que devemos ou não comer, porque é que é tão difícil? Será apenas falta de força de vontade? Seremos mais fracos do que os outros que conseguem resistir a esse tipo de apelo? Seremos mais gulosos?

Embora não sirva de desculpa para justificar as escolhas erradas que fazemos, é importante perceber que existe uma indústria multimilionária que pode dificultar a tomada de decisão a quem quer fazer boas escolhas relativamente à sua alimentação. Para além das bem estudadas estratégias de marketing e publicidade que nos bombardeiam todos os dias, a toda a hora, existem departamentos e cientistas que estudam qual a combinação exata de ingredientes que estimula as zonas do cérebro relacionadas com o prazer de tal forma que nunca recebemos um sinal de satisfação e por isso queremos/desejamos sempre mais.

O ponto onde existe um equilíbrio ótimo entre os ingredientes chama-se bliss point. Por outras palavras, o bliss point define-se como sendo uma concentração ou rácio ideal entre nutrientes que o nosso corpo está programado para querer, ou melhor, desejar: gordura, sal e açúcar. Ou seja, não é falta de força de vontade. Nós evoluímos de forma a querer alimentos com estes três nutrientes. O desafio da indústria alimentar consiste em encontrar a fórmula ideal para que um alimento se torne altamente palatável e irresistível. Abrir um pacote de batatas fritas e comer só uma? Impossível! E as tiras de milho? As bolachas de chocolate? Só duas? Já o pacote vai a meio!

recompensaA espécie humana evoluiu em tempos de escassez em que nutrientes vitais eram difíceis de encontrar. Então, assim que alimentos com estes nutrientes eram encontrados, o centro de recompensa do cérebro recompensava-nos com uma descarga de endorfinas. Para o corpo é muito mais fácil metabolizar açúcar e outros hidratos de carbono do que proteína, por isso o açúcar é a fonte preferencial de energia. Por isso, é natural que a nossa resposta ao açúcar seja muito positiva. A seleção natural encarregou-se de preservar a capacidade para detetar e saborear alimentos em que estes nutrientes estivessem combinados e, ainda, de lembrar os alimentos que produziam estas sensações positivas. Os impulsos que temos para comer alimentos com açúcar, gordura e sal não são falta de força de vontade, são mecanismos de sobrevivência necessários à preservação da espécie.

Atualmente, claro que estes nutrientes ainda são necessários, mas em muitos países a disponibilidade alimentar é absurda. A oferta alimentar é imensa e a evolução não conseguiu acompanhar a mudança ambiental. Além disso, crescemos a dizerem-nos para não deixarmos comida no prato e que só podemos comer sobremesa se nos portarmos bem. Este tipo de educação reforça e promove os mecanismos cerebrais que nos fazem ver os doces como recompensas.

junkÉ fácil perceber, então, que a sobrealimentação é fácil e muitas vezes inevitável. A procura de uma recompensa está relacionada com a adição e, apesar de a publicidade de outros produtos que provocam vícios, como o tabaco, estar proibida, a publicidade sobre comida altamente viciante não está regulamentada.

Apesar de existirem alguns alimentos que surgem naturalmente em estado selvagem que são bastante apelativos para nós, por conterem uma combinação de açúcar, sal e gordura, a ciência permitiu-nos chegar muito mais perto de um ponto ideal em termos de palatibilidade na comida processada.

Tomando consciência dos fatores que concorrem para aumentar a vontade de comer alimentos que podem prejudicar a nossa saúde, torna-se mais fácil tomar decisões mais acertadas. Saber é poder!

Por: Sofia A. Rodrigues, nutricionista

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